Hoje abro aqui mais um rubrica neste espacinho nos confins deste mar que é a Internet. Como é previsível pelo aparvalhado titulo que lhe dei, é uma rubrica dedicada à música que anda a circular pela minha playlist. E o visado de hoje, na inauguração deste espaço, é um CD que muito me surpreendeu e que certamente todos já ouviram falar: Amália Hoje. A ideia da concepção deste CD saiu da cabeça de Nuno Gonçalves, mentor dos The Gift, que para este processo de modernização das músicas de Amália, uniu as vozes de Sónia Tavares (The Gift), Fernando Ribeiro (Moonspell) e Paulo Praça (ex-Turbo Junkie).
E o que leva este CD a ter o direito de estrear a mURSicoteca? Podia simplesmente dizer: 'Epah, ouçam-no e logo vêm!'. Mas como estou com bastante tempo livre, posso me perder em palavras à vontade, para gáudio do leitor (NOT!). Portanto, acima de tudo, a orquestração das músicas é exímia, muito graças à participação da orquestra de Londres que dá uma força extra às já fortes músicas da fadista. Mas engane-se quem pense que é só mais um disco de tributo à diva do fado! O cuidado de Nuno Gonçalves em transpor alguns dos mais aclamados fados de Amália para uma sonoridade mais século XXI é enorme, abrindo as portas a várias culturas musicais, desde a bossa nova, ao rock mais experimental, passando pela pop electrónica.
Amália hoje é então um dos melhores e mais portentosos projectos criados em solo nacional nos últimos tempos. Se for para continuar neste caminho, parece que o nosso país sempre tem futuro!
Deixo-vos aqui a musica mais assombrosa do CD, um versão mais que fantástica de Gaivota, na bela voz de Sónia Tavares:
E um pequeno aparte, fora do CD. Uma interpretação também brilhante de Gaivota, por parte da banda algarvia, Iris:
Após quase um mês de ausência, ainda desolado com o fim de scrubs, é com alguma alegria que venho partilhar convosco um projecto por mim realizado, com a ajuda da minha bela namorada e três colegas (um especial obrigado ao Nuno, o actor da trama). Trata-se de uma curta metragem, elaborada para a disciplina de Cinema, estando eu a 'tirar' o curso de Jornalismo (embora seja mais para o lado da escrita criativa que quero cair). De salientar que o som ainda não se encontra na sua fase final. Irei regravar a voz, que está demasiado apática e monocórdica, e regular melhor o volume musical.
Assim sendo, aqui fica o video, que trata da angústia de perder alguém, dividido em dois, devido às limitações do you tube.
Parte 1
Parte 2
Guião:
Foi fogo. Sim, foi fogo que acordou o rastilho para a tua suave eclosão. Em tons de amarelo surgiste e em incolor nevoeiro em mim perpetuaste. De delicado feno criaste o ninho em que nos tornámos eternos. Mas afinal, nada é eterno. Para sempre vivemos. Mas para sempre foi um instante. Nada perdurou. Tudo acontece no tempo de um cigarro. E tu aconteceste numa baforada. Não pergunto ‘porquê tu?’. Todos vamos desaparecer um dia, mais tarde ou cedo. Pergunto antes ‘porquê a mim?’. No meio de tanta gente, porquê logo eu? No meio de tanta tragédia, porquê escolher logo este desgraçado? Que deserto este em que me deixaste que nem oásis de ti despontam. Que deserto este que nem o sol quer aparecer e sozinho eu merecer estar. Podíamos ter sido mais. Ter ido onde nunca ninguém me levou. Mas num voo picado, sem esteira nem rede, sem cama nem colchão, foste onde não te posso trazer de volta. E eu… eu… que podia eu fazer? Se ainda aí estiveres, desculpa-me. Não há garrafa que valha o que não fiz por ti. Mas aquela garrafa… tinha que ser aquela, apenas aquela. Aquela garrafa custou o teu adeus. Podia ser mais um desencontro de ideias ou uma dissertação de erros meus. Mas não. Foi apenas aquela garrafa. E aquela luz. E aquele travão. Que me travasse antes a mim… Voavas sem parar, sonhando ou não. Mas logo naquele dia tinhas que experimentar o conforto de um Astra. Logo comigo é que tinha que acontecer. Afinal, que mal assim tão grande fiz eu, Deus? Deus? Que Deus… que Deus este rouba os seus mais perfeitos filhos no despoletar da vida! Que Deus este que nos cortou como um folha velha. Que nos queimou como um tronco seco. Que nos rasgou como… como… Era apenas uma garrafa, duas no máximo, iguais a tantas outras…. E pagaste tu por isso. Agora cobro eu essa conta. Conta duma morte que eu próprio encomendei, mesmo sendo outra mente que possuía o meu corpo. Outra mente e duas garrafas. Só duas. E não foi a falta de aviso. Bem me dizias que elas ainda nos iriam matar aos dois. Poucas vezes havia erros nas tuas palavras, mas as metáforas nunca foram o teu forte. Já eu usava-as para dissimular todas as vezes que as garrafas me tocavam. Era esse o meu forte e não as minhas músicas, como tu tanto defendias. Eras a única a ouvi-las. Eram só tuas, pois para mais ninguém tocava. Num só acorde e a tua atenção era só minha. Soltava um Sol, já te tinha a meus braços. Alternava entre um Dó e um Fá e a noite era nossa. Ao fim de um Mi a melodia envolvia-nos e entre Rés e Sis pairávamos sobre o nosso reino sagrado. O nosso ninho. Com um dedilhado de Lá matei-te. É neste enredo sem regras que os mais fortes perecem e os mais fracos se juntam à volta da fogueira e se enaltecem em bélicas melodias. Não fomos criados para viver nesta era. Nunca serias escrava de ninguém nem gladiadora para ninguém. Nunca serias plebe nem povo. Não! Noutra era serias Spartacus ou Leónidas. Serias a voz de uma nação como foi William Wallace. Não serias Cleópatra, porque ela cairia a teus pés. Na nossa era, apenas tiveste tempo de salvar uma putrefacta alma que para te agradecer, te cortou o pio. Com que direito? Se alguém tem o direito de excluir do nosso presente, que sejas tu. Tiravas-me um fardo de cima, já que o de te perder não sossega. O difícil que é ter-te apenas na recordação e não te poder materializar. Mais difícil é não te poder mais ver pelos céus, posando em nuvens de veludo e acariciando-me com palmas de ceda. Eras feita de casca de ovo. O que nos riamos por causa disso. Tão frágil para tanto tamanho. Preenchias-me de tal forma que pensei clonar-me, porque não havia mais espaço dentro de mim, de tanto que ocupavas. E agora? Desapareces e permaneces em mim? Quão justo pode ser? Mas afinal, o que é a justiça na morte? É uma criança morrer a brincar no jardim e um terrorista sobreviver no meio de explosões? Se há justiça neste presente, ainda está para chegar dum futuro ainda sem sombra. Porque é que não passa? Esta dor intensifica-se a cada lufada de ar e já me agonia o pensar em respirar. Cada vez sinto menos vontade de o fazer. É como agulhas que se cravam pelo corpo adentro, tatuando um horrendo ardor que nem o frio polar conseguirá cessar. O mal que me fazes. Contigo aprendi a sorrir quando me apetecia fugir de tudo. Não fossem aquelas garrafas e podias tentar mais uma vez. Mas agora, se sorrir, desvaneço. Puxo um cigarro e logo a seguir vem outro, sempre à espera que me peças para largar isto de vez. Mas este sempre transformou-se numa eternidade e tu nunca mais me pedirás tal coisa. Apenas o vento me lembra que ainda sinto. Levaste contigo tudo o que de mim restava e agora sou um saco vazio, outrora recheado de compras, hoje voando ao sabor do vento. Ao menos que te encontre numa nuvem. Mas não estás lá. Eu fiz com que nunca mais estivesses. Para me lembrar de ti, incendeio-me em mais um cigarro e penso no bem que me fazias evitando que eu o fumasse. Já viste isto? Já só falo de ti no passado. Mas cada vez mais sei que és futuro. Enquanto vou pela estrada, imagino o tipo de pessoa que serei sem ti e a minha única salvação está na gentileza de um atropelamento. Mas a cena não se afigura na minha cabeça. Sabes que nunca gostei de dar nas vistas. A caminho de casa lembro-me que estou com fome, e a ideia de saltar refeições parece-me à primeira vista a saída desta prisão. Mas chegaria mais rapidamente ao inferno na terra do que às nuvens contigo. Tento livrar-me destes pensamentos, mas foste tu que começaste. Sabes que a morte sempre me assustou, mas agora apenas a tua ausência me atormenta e a morte não passa de uma mosca. Estou mais que cansado e uma cama fazia-me bem. Mas tu estives lá. O cheiro continua intenso e consigo mesmo ouvir a tua voz. Então, porque raios não te sinto? O caminho até ti parece encurtar-se, mas a estrada continua longa e não sei se é uma jornada que eu queira fazer. A reflexão é madrasta mas a tua ausência também. A escolha é minha. Até já, meu amor.
Antes de tudo, olá! Bem dispostos? Ora, ainda bem!
Após este bocejo de simpatia, engane-se quem pensa que venho com este sugestivo título anunciar o fim desta Irmandade! Pronto, só para que conste!
Vou directo ao assunto, porque esconde-lo dói ainda mais...Chegou ao fim (talvez) a melhor e mais importante série de sempre. É verdade! Se são fieis seguidores deste blog (cof, cof), desde o primeiro post, saberão à partida que a série a que me refiro é SCRUBS (ou Médicos e Estagiários, segundo a tradução portuguesa), uma série saida da cabeça do brilhante Bill Lawrence. A sua importância é sobejamente conhecida, a partir do momento que é devido a SCRUBS que este blog possui este aparvalhado nome (justificação aqui). E é a melhor por uma união avassaladora de factos, que por uma ou outra razão fogem a outras séries. SCRUBS não é uma simples sitcom, (até porque não tem as irritantes gargalhadas de fundo, tão usuais em séries do género) e muito menos mais uma série de médicos. Vai muito mais além dessa singela noção. Desde os seus primeiros episódios que nos é oferecido um menu recheado de personagens do mais alto nível, criando-se logo à partida laços que perdurarão para (quase) todo o sempre. Como aperitivos, temos Janitor, o homem das limpezas, cujo seu hobbie preferido é infernizar a vida de JD, vindo logo a seguir a embalsamação de esquilos lutadores; Temos Tod, também conhecido pelo Hi Five Guy, um cirurgião ninfomaníaco sem grandes tabus nem sentido de vida; Ted, o advogado mais ineficaz do mundo, assim como a personagem mais terna de toda esta trama; Dr. Kelso, o director do Sacred Heart (hospital onde se desenrola a série), o diabo em pessoa, mas que no fundo é o "pai" de todos os que dele dependem. Como prato principal temos Carla, a enfermeira que irá guiar as personagens centrais rumo à sobrevivência no hospital; Turk, um dos pilares do enredo, melhor amigo de JD desde os tempos de liceu e um cirurgião de alto gabarito; Elliot, a menina bonita do Sacred Heart, irá ser o par romântico de JD, embora passe mais tempo nos "treinos" com outros moços. É uma rapariga bastante insegura em relação a si e psicótica em relação à vida; Dr. Cox, o idolo do JD , embora apenas o rebaixe e humilhe. Tem a capacidadeimpressionante de disparar palavras à velocidade da luz e quanto mais humilhantes forem, mais gozo lhe dará. É, no fundo, o pêndulo do hospital (o Dr. House do sitio, se quiserem). Tem ainda um ódio de estimação por Hugh Jackman. Como sobremesa, a melhor parte da refeição, temos John 'JD' Dorian, a personagem principal e fundamental de SCRUBS. Um rapaz extremamente sentimental, que necessita de bastante atenção. É em seu torno que se desenrola toda a história da série. Juntamente com Barney Stinson (How I Met Your Mother), a melhor personagem de sempre em séries de comédia!
Uma parte bastante fundamental na história de SCRUBS são os seus actores convidados, que adocicam ainda mais esta brilhante jornada pelos corredores de Sacred Heart, com especial destaque para Brendan Fraser, que oferece à serie o episódio mais emocionante de todos (My Screw Up). De destacar ainda My Phylosophy, onde temos um retrato belíssimo do que a morte pode ser. Mas um dos principais e mais marcantes episódios é sem dúvida My Musical, onde a equipa de médicos se debruça sobre uma paciente que apenas ouve musica. Ou seja, quando se dirigem a ela, esta ouve-os a cantar. Foi uma prova de fogo pôr todo o grupo de actores a cantar e a dançar, como se de um musical da Broadway se tratasse. Um episódio memorável! Um pequeno exemplo:
SCRUBS parece realmente simples de definir, mas não o é. Ao contrário da maioria das séries de médicos, aqui não iremos ver grandes casos resolvidos todos os dias de forma quase miracolosa. Pelo contrário, temos a vida num hospital vivida como ela é verdadeiramente, onde a maioria dos casos são de fácil solução e onde muita gente chega para morrer. SCRUBS consegue-nos por a chorar a rir com a mesma facilidade que nos põe a chorar de emoção. Consegue-nos enervar, da mesma forma que nos põe de bem com a vida. E é tão particular, que faz com que nos aconcheguemos nela de forma bastante pessoal.
Desde os daydreams do JD (os seus mirabolantes sonhos acordados, que são no fundo aqueles pensamentos que passam pela cabeça do mais comum dos mortais, por vezes sem qualquer nexo e que temos vergonha de expressar), à maravilhastica realização e produção, ao melhor estilo de Hollywood, passando pela deliciosa banda sonora, assim como pelo magnifico grupo de actores, SCRUBS chegou, viu e venceu em terras do tio Sam e um bocado por todo o mundo, não tendo no entando pegado muito de estaca aqui nas terras do tio Socrates (passando quase despercebido pela Sic Radical, sem direito a edição em DVD!).
Oito anos passaram desde o primeiro episódio e foi com dignidade e brilhantismo que fizeram de SCRUBS algo que nunca se removerá de mim, por tudo o que revelei aqui e mais um bocadinho. É de pé que aplaudo o fenomenal momento final desta saga, que atentou a todos os pormenores e, acima de tudo, pensou em quem ficou. Até porque não é fácil fazer chorar este urso que vos escreve e é ainda emocionado que digitou estas últimas palavras deste post, daquela que ficará para sempre retida na minha memória como a melhor aventura de todos os tempos.